Onde ela se perdeu

30 dezembro 2015

Ela não sabia mais o que fazer. Havia levado longe demais a sua mágoa. Ela tinha se tornado sua bola de neve e estava por perseguí-la montanha abaixo. Ela sabia que seu ar saía de forma irregular. O tempo todo. Ao engolir a saliva, sentiu o gosto amargo da lembrança. 
Numa noite, ela saia de vestido curto, batom vermelho. Achava que se mostrar bonita e "mulher" poderia fazer alguém amá-la. Tudo por que havia levado aquilo longe demais.
Foi fraca, levou aquilo a ponto de tentar sem quem não era. De tentar ser igual as "mulheres" que conhecia. Ela havia se deixado levar.
A verdade era que, no momento em que ela passara dos limites, viu o que estava fazendo - no momento seguinte seu corpo foi tomado por... uma força. Seu estômago era revirado pelo enjoo. Aquilo era... nojo?!
Ela havia se esquecido de como era. Infantil, andava de roupas pretas sem ligar pras cores femininas. Falava as coisas nas caras das pessoas pra mostrar o quanto elas eram vulneráveis. Nunca entendera de amor além do que via nas animações. Achava os humanos um erro e os contos de fada um sonho... 
Era insensivel, acreditava que as pessoas não entendiam o verdadeiro sentido de amor. Era bem humorada. Nunca andara com garotas e se estranhava por isso. Acontece que suas preocupações nunca foram amores banais, pois pra ela, nem sequer eram amores. Ela não entendia o mundo.
Quando amava, agia como a garota que havia conhecido nos desenhos - um pouco ingênua, nunca se entregava por completo. Era marrenta e teimosa. Tinha olhar universal - sempre teve mania de se preocupar com todos antes de si. 
Não sentia muito, por que só aqueles que pareciam ser personagens de seu conto pessoal a cativavam. Era quieta, se apaixonava por detalhes. Ela via brilho em todos que todos não gostavam. Os não-padronizados eram os seus preferidos. Afinal, ela também era uma. Estranha para o mundo, enorme dentro de si. Sua timidez era uma qualidade afinal, por que fazia-a se mergulhar em si. Eram poucos os que a tinham. 
Ela havia sentido demais. Sempre teve mania de não desistir das pessoas. Havia se esquecido que não acreditava nos seres humanos, ao mesmo tempo em que acreditava. Ela era realista. Não idealizava. Não sabia lidar com contato físico, e nem às vezes preferia. Pra ela, as melhores verdades eram ditas com os olhos.
Preferia preto a rosa. Era do contra, não gostava de modinhas. Antipática, não falava com todos nem fazia questão. Ela moldava seu mundo da forma que queria. 
Era tudo apenas um devaneio. Aquela mágoa? Um bocejo. E agora ela via. Num piscar de olhos, ela pôde se ver no espelho e respirar da mesma forma que antes, vendo-se com seus próprios olhos.


Paula Matcki

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