Lágrimas de trovões

17 janeiro 2016

Ela não gostava de ouvir o som dos trovões, nunca contou a eles, mas se identificava. Era como o grito desesperado, o coração se partindo, o choro agoniado. Amava o céu, disso sabia, por que era como ele, perdia coisas.
Imaginava o romance do céu com a chuva, o romance mais lindo, um morava no outro. Até que a chuva quer ir embora, quer encontrar o mundo e explorar o que há nele, e ela sempre vai sem aviso prévio. Vai embora, encontra o chão, parte corações e tudo o que se pode ouvir são os trovões, o choro do céu. É possível ver os relâmpagos como as rachaduras no coração novamente partido dele. As gotas de chuva encontravam o mundo que tanto queria explorar, que por ambiguidade e ironia, também significavam as lágrimas do céu diante da dor. 
Um amor tão grande e perdido recomeçava todos os dias. Odiava a chuva por que ela fazia o abandono existir. Era a natureza contando sua sina, a natureza lembrando que até ela mesma teve seu coração partido, lembrando-nos todos os dias do que era essa dor. Não gostava do som do trovão por que lhe lembrava seu choro, o pranto incessante; a chuva personificando as lágrimas do coração partido, encontrando o mundo que tanto queria ter.
O céu sempre chorava, sempre amava, sempre perdoava e sempre perdia. Era grande e colorido esse céu, para era ele simbolizava o amor.
Romance épico esse que se repete desde os primórdios do que era a natureza, e agora se repete na mente dela. A cada vez que chovia o palco se enchia, a plateia assistia e aplaudia, e as cortinas se abriam. Um coração se partia, e as cortinas se fechavam novamente. 
O céu queria o amor, e a chuva queria o mundo.
Era uma espectadora solitária, teria sido o céu em outra vida, queria ser. Amava como ela, amava de verdade, não por metade e sim por inteiro, o céu era amante das histórias de amor, era amante de poesia e como era poeta. 
Era como ela o céu, que perdia e ganhava, perdia e ganhava, sempre sorrindo ao por do sol e chorando na tempestade. Perdoava e amava incessantemente, todos os dias. Amava e perdia todos os dias. Mas nunca cansou-se de amar e perdoar, e a chuva sempre voltava ao céu mais uma vez. E o céu, que era como ela, a recebia com amor e perdão infinitos, mais uma vez.



Paula Matcki

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